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A força de um empreendimento culinário nas periferias de Belém (PA)

Na capital paraense, o restaurante ‘As Negonas’ mostra como o alimento pode ser também ferramenta de transformação social e afirmação de identidade.

Atualizado em 15/01/2026 às 11:01, por Nádia Juvêncio.

Foto: Prato Firmeza - Énois

No Norte do Brasil, assim como nos demais cantos do País, o sonho de empreender também contagia as pessoas. Essa utopia leva à construção de verdadeiras maravilhas e à possibilidade de o público se deliciar com comidas típicas saborosas, como o vatapá e a maniçoba, temperadas sobretudo com afeto. Assim é a história do restaurante ‘As Negonas’ (localizado rua Ferreira Filho 18, bairro Bengui, Belém, PA, Brasil), relatada por uma das irmãs que o fundou. 

 

Prato Maniçoba, preparado pelo restaurante ‘As Negonas’, de Belém do Pará.
Foto: Rede Social - Facebook do Restaurante 'As Negonas".


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Maria de Nazaré, mãe, de 48 anos, conta que sempre quis empreender. Ela já havia trabalhado com venda de planos de saúde e, assim como sua irmã Rosiane Reis [em memória], também trabalhou muitos anos em casa de família. Para mudar de vida, entretanto, Nazaré precisou estudar bastante. Ela diz que realizou vários cursos, e que um desses, de panetone, lhe chamou atenção.

Quando eu saí do curso, saí maravilhada, eu falei assim, bom, eu achei o produto, eu vou ficar rica. E aí eu cheguei com a minha irmã e falei ‘eu achei o produto’,

lembra Nazaré.

A partir daí, as irmãs – Nazaré, Rosiane e Telma – conseguiram o capital necessário para começar a produzir panetones para venda. Nesse período, porém, ocorreram muitas perdas devido à falta de técnica, e, embora o número de vendas também tenha sido grande, o objetivo de Nazaré – enriquecer a partir do trabalho – não foi alcançado. Por esse motivo, ela teve outra ideia.

Eu nunca gostei de bolo maçudo e sem recheio. Então eu desenvolvi um bolo do jeito que eu gostava, que é o Prestígio, que é um dos mais vendidos aqui também, e aí ela sabia fazer o salgado, e a gente se juntou e montou essa lanchonete improvisada aqui na frente.

Nazaré.



Assim nasceu uma banca de lanches, em terreno cru, onde as irmãs vendiam sucos, bolos e salgados. Nazaré conta que elas se sentavam na frente do empreendimento e chamavam os fregueses.

A gente morrendo de vergonha. O que as pessoas iam pensar, né? A gente vendendo salgados, ia estar passando fome, alguma coisa. A gente só queria empreender mesmo,

Nazaré.

 

O fato é que rapidamente o negócio evoluiu e exigiu a compra de máquinas como fritadeira e estufa, de banquetas, bisnagas, entre outros utensílios de lanchonete. Depois disso, o cardápio também mudou por sugestão dos clientes. Com o tempo, o estabelecimento, a princípio apenas familiar, precisou contar também com o apoio de outras pessoas, que se capacitaram dentro dele.

Logo quando a gente abriu, a gente entregava a produção e a gente ia lavar a louça depois, ficava até 2 horas da manhã. E aí foi chegando um processo que a gente não deu conta mais de nada,

diz Nazaré.

 

 

Foto: Rede Social - Facebook do Restaurante 'As Negonas".


Assim, o restaurante ‘As Negonas’ gera, hoje, emprego para treze pessoas e foi referência para a abertura de outros negócios nas redondezas.

Hoje com 16 anos, o empreendimento das irmãs Nazaré e Rosiane já esteve em diversos eventos desde 2019, como a Feira Estadual do Artesanato (Fesarte), o Festival Psica e a Feira do Livro. Nazaré diz que essa participação é muito vantajosa no que diz respeito à visibilidade alcançada. Sobre essa visibilidade, inclusive, ela relata que nunca imaginou lotar uma sessão de cozinha-show – parte da programação da 11ª Feira Internacional de Turismo da Amazônia, da qual participou com a irmã Rosiane em 2023.

Foi a coisa mais louca da nossa vida, porque a gente nunca imaginou, foi uma aula que super lotou, a gente nem imaginava o peso que a gente tem, o nome que já se projetou,

conta a empreendedora.

 

Foi em um evento, inclusive, que surgiu a ideia para o nome do restaurante. Nazaré diz que no início do negócio, foi convidada, junto com a irmã, para vender suas guloseimas em uma roda de carimbó. Na ocasião, as duas dividiram o espaço com outras mulheres, das quais apenas uma era branca. Por isso, um amigo delas, responsável pelo evento, passou a se referir a esse espaço como Cantinho das Negonas. Assim, no momento de decidir o nome do novo estabelecimento, ela escolheu ‘As Negonas'. Nazaré conta que ouviu de algumas pessoas que esse nome geraria preconceito e que recebeu outras sugestões, mas que afirmou, com orgulho:

Eu sou preta desde que eu nasci. Eu já sofri todo o racismo que eu posso imaginar. E eu sobrevivi. O que vai diferenciar? O que vai atrapalhar?.

Nazaré.

 

O racismo, aliás, de fato as atingiu após a criação do restaurante. Normalmente, Nazaré e Rosiane apenas montam suas barracas nas feiras, mas não permanecem nos eventos. Em uma ocasião, porém, ficaram e, enquanto descansavam, duas mulheres brancas se aproximaram e conversaram com o atendente do restaurante sobre um convite para outra feira, pensando que ele fosse o dono do negócio. Quando ele indicou as verdadeiras proprietárias, as mulheres quiseram recuar.

Então, quer dizer, elas viram o nome As Negonas, mas não perceberam. Elas acharam que ele fosse o dono e a gente fosse as funcionárias dele. A gente atravessa isso,

relata Nazaré.

 

Esse desafio atinge tantas pessoas no Brasil, porém, nunca parou o trabalho das irmãs. Elas continuam a deliciar seus clientes com pratos saborosos, como o típico vatapá, acompanhado de arroz. Quem conta seu preparo é uma das irmãs, Rosiane Batista. Ela começa com mise en place [Mise en place: é uma técnica que consiste em preparar tudo o que é necessário para o preparo de uma receita antes de começar a cozinhá-la, garantindo que os ingredientes e utensílios estejam prontos e à mão, evitando imprevistos e otimizando o processo.], preparando os temperos: cebola, alho, pimenta de cheiro, alfavaca, cheiro-verde e cebolinha, tudo bem picadinho ou amassado. O camarão salgado é dessalgado, e as cascas são batidas na água e então coada para formar um caldo. O trigo é também batido com água e fica reservado. Na panela quente vão óleo de soja, dendê e os temperos refogados. Depois entra o camarão, o caldo das cascas e o leite de coco. Quando começa a ferver, o trigo vai sendo colocado aos poucos, até engrossar. Após isso, mais leite de coco e, se quiser, um pouco de creme de leite para dar mais cremosidade. Finaliza com cheiro-verde, cebolinha e alfavaca. O resultado é um prato que abraça: saboroso e cheio de camadas, o tipo de comida que dá vontade de repetir e guardar na memória. Uma receita feita com amor e aprimorada há mais de 16 anos.

No restaurante também podemos nos deliciar com a típica maniçoba, prato de origem indígena, com influências africana e portuguesa. Lá é usada a maniçoba pré-cozida, que ainda passa por um cozimento adicional de 7 a 8 horas. Após esse processo, inicia-se a temperagem: são adicionadas carnes salgadas como charque, bacon e paio, além de temperos que equilibram sabor e aroma. O sabor é forte e envolvente, as carnes salgadas dão aquele toque defumado e gostoso, que mistura o sal com a gordura na medida certa. A maniva bem cozida se desmancha e abraça cada pedaço com suavidade, ficando macio na boca e carregado de sabor.

Com o tempo, a equipe desenvolveu um paladar único para a maniçoba, adaptando a receita com muito cuidado para agradar aos clientes.

A gente gosta de levar para os nossos clientes uma comida boa, de qualidade, onde esse cliente coma e queira voltar novamente para repetir o que ele comeu,

conta Rosiane Batista.

 

Dentre essas delícias, há várias outras como lasanha de frango, feijão tropeiro, arroz com galinha, arroz com charque, empadão e, claro, os bolos de diversos sabores, que são bastante pedidos pelos clientes A marca do restaurante é, no fim das contas, o trabalho responsável, comprometido e a cabeça erguida das irmãs diante do preconceito e de outras dificuldades.

É mais um exemplo do que se pode realizar com amor pelo ofício. “A gente já passou por todos os processos que tu possa imaginar, de construção à desistência, por todas as dificuldades que a gente teve ao longo dos anos. Mas a gente se manteve, porque a gente acredita muito nisso aqui.

Rosiane Batista.

 

E é justamente essa crença inabalável — no ofício, na identidade e na coletividade — que faz do restaurante um território de sabor, afeto e revolução.

*Esse texto faz parte do livro Prato Firmeza Amazônia: raízes da culinária tradicional brasileira, um projeto realizado pela Énois e pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Patrocínio do Assaí e da RD Saúde. Apoio do WWF, Instituto Clima e Sociedade e Instituto Ibirapitanga.

**Reportagem publicada em memória de Rosiane Batista que nos deixou no dia 09 de janeiro de 2026.

Baixe o livro e saiba mais em: https://www.pratofirmeza.com.br

Por: Tapajós de Fato
Fonte: Ana Vitória Batista e Leonardo Santos.

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